segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Um olhar negro sobre Goiás: mitos e ritos afros sobre os becos de Vila Boa

Muito se conta sobre a antiga Vila Boa de Goiás, seus becos inspiraram grandes nomes da literatura goiana e brasileira. A cidade, que foi apresentada ao mundo sob os olhos da saudosa filha ilustre Cora Coralina, carrega em quase todos os seus poemas uma marca registrada, ou melhor, o suporte de sua identidade social, a religiosidade.
Goiás se fez em evidência, aos olhos do Brasil não só pela riqueza de sua arquitetura colonial quase intocável desde seu nascimento no século dezessete, mais pela religiosidade de seu povo, a “maioria”, segundo a história oficial, descendente de paulistas como os bandeirantes que por sua vez descendentes diretos dos portugueses, católicos praticantes, o catolicismo está em evidência. Em todos os livros que recontam a história de Goiás poucos escritores resaltam a quantidade de negros que aqui viviam entre o século dezoito e dezenove, período em que Goiás conheceu seu apogeu e sua quase ruína, menos ainda se fala dos rituais que estes negros práticavam as vezes até com a presença dos seu senhores. O que eram exatamente as irmandades negras? Apenas um passaporte para a ascensão do negro na sociedade vilaboense, já que não podiam estar na mesma igreja dos brancos, ou uma forma sincrética de adorar seus orixás.
Cristina de Cassia Pereira (2000) escreve que a presença de elementos de origem indígena e africana nos rituais das irmandades de Minas Gerais e Goiás eram a prova do enraizamento dos sertanistas dos indios e dos africanos.
Sebastião Fleury Curado (1989) descreve um ritual que acontecia durante os festejos de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos na cidade de Goiás. Sem muita ênfase, segundo ele por falta de registros, sobre a chegada da rainha negra, ponto alto da festa do Rosária onde era escolhida uma negra para representação da rainha africana, existem registros de uma festa parecida em Angola, um país africano onde séculos atrás existia uma tribo liderada por uma rainha chamada Nzingua Mbandi. Esta tribo ficou conhecida segundo Nei Lopes (1988) por lutar sem trégua contra o colonialismo portuguès e por ter em seu cárteu variás amazonas negras, por muito tempo o reinado de Nzingua resistiu aos ataques portugueses e os venceu em variás batalhas.
Escritores antropòlogos como Roger Bastide, Cliffort, Nei Lopes e outros que escrevem sobre rituais africanos e a sua contribuição na invenção identitária do Brasil ressaltam semelhanças nós rituais praticados aqui no Brasil e em Goiás, agora segundo Fleury Curado (1989) ele descreve assim o ritual: “...com antecedência de semanas (...) se preparava a entrada da rainha (...) as mucamas preparavam muito tempo a “entrada da rainha” (...) festa profana e religiosa, que abalava a cidade inteira de Goiás (...)”.
Se eram tão importante, por que se perdeu logo depois do fim da escravidão se ali é que devia ser o seu auge? O autor Fleury ressalta que, apesar da importância desta festa para a cidade há poucos registros sobre seus cortejos, muitos já escreveram sobre as irmandades negras em Goiás e trabalharam suas ramificações com as irmandades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e outras cidades, mais poucos partiram do pressuposto de que elas eram apenas o refúgio para os negros cultuarem seus orixás. E menos ainda sobre isto em Goiás, nossa Vila Boa ainda é conhecida pela suas celebrações cátolicas, suas procissões de adoração, nada se fala da tradição reinventada da Umbanda que agrega nos seus cultos as riquezas das irmandades negras nas suas orações, ora africana ora portuguesa, e em si tratando de Goiás, será que quando o autor chama a festa da rainha negra que acontecia nós festejos do Rosário de festa religiosa e profána ele estava se referindo apenas ao fato de haver durante o cortejo bebidas, ou ao detectar neste festejos vestigios africanos que aos olhos vilaboenses da época faziam parte de uma religião pagã, a africana. Muitos séculos se passaram desde que a festa de Nossa Senhora do Rosario não é mais a mesma, talvez agora aos olhos de muitos ela tenha se tornado apenas religiosa, talvez seja por isto que a festa do Rosário tal como era perdeu-se no tempo sem deixar vestígios.
A falta de mémorias negras em Goiás é uma lacuna que precisa ser preenchida e cabe a nós, futuros gestores do patrimônio, e vilaboense que sou, por isto guardiã destas memórias e reconstrutora desta história agora sobre uma nova óptica, a negra.
Em suma este texto e parte de minhas pesquisas que trabalham com memórias reconstruídas em Goiás sob os olhos da religião afro descendente, a Umbanda, o propósito é reescrever a história das irmandades negras em Goiás inserindo em seus rituais o nascimento dos cultos umbandisticos em Goiás, por isto na primeira parte resalta o surgimento da Umbanda no Brasil, seus cultos e sua matrix africana.
“...Eis as notas que constituem simples escôrço e que só podem interessar aos filhos da cidade de Goiás,(...) a festa do Rosário, tal como era feita, desapareceu. Assim, a irmandade do mesmo nome, composta de negros escravos...”, (Curado, Sebastião Fleury, Memórias Históricas, 2a edição, 1989).

Um comentário:

Thaís* disse...

Olá! fiquei muito feliz em encontrar este blog! eu tbm sou estudante de História da UEG e o tema que defini para a minha monografia é relacionado aos registros sobre escravidão na cidade de Planaltina DF, e como esta cidade sempre fez parte de goiás, não tem como desvinculá-los. mas o problema é que eu venho encontrando mais silêncios do que informações concretas, por isso a importância do seu blog, porque virtualmente, é uma das únicas menções a um assunto afim. Em Planaltina só se fala das famílias brancas tradicionais e nada mais, preciso de referências! esses nomes que vc cita podem me dar uma luz?
A gente pode se comunicar mais vezes???
Obrigada e Parabéns!